domingo, 31 de maio de 2009

As lembranças da menina pipissa...


-Como é teu nome menininha?!
-Pipissa!

Ela sempre me relembrava com meiguice a lembrança do pequeno ser que começava a crescer. Tinha guardado no lugar mais lindo possível, via-se pelo seu olhar quando descrevia imagens peculiares daquela pequena:
-Tão goduxinha! A mão parecia uma estrelinha, nunca se via fechada como se tivesse sempre atenta para pegar qualquer coisa que lhe alcançasse. Os olhos vivos, sempre arregalados a procura do novo, prestava atenção em tudo! Quando caia eu sempre dizia "levanta pra cair dinovo!".Só não lhe fizesse chorar, porque ai era aguentar os ouvidos, pois até os vizinhos escutavam!

Era sempre bom ver o brilho dos olhos daquela linda senhora e quando falava tão intimamente dessas lembranças(...)
Hoje é domingo pede cachimbo, o cachimbo é de ouro, dá um tesouro, o touro é valente,bate na gente, agente é fraco, cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo! Essa musiquinha é a cara dela, e domingo era dia de ela fazer uma galinha cozida, com salpicão e o arroz branco bem solto (como foi hoje aqui em casa, só faltou o salpicão!). Depois passava a tarde assistindo o Silvio Santos e fazendo palavras cruzadas.
Quando sentava-se na cadeira pra ir assistir TV, às vezes, esquecia-se da prancheta que tinha seus coquetéis, e dos óculos. Pedia pra eu ir pegar. Eu sempre ia e voltava com os óculos dela no rosto, sempre dizia:
-Tira isso do rosto menina que tu vai ficar ruim dos olhos que nem tua vó!(foi dito e feito!)
Todos os dias no fim da tarde se aprontava toda pra ir pra sua corriqueira missa, costumava perguntar se sua saia estava "amarrotada", eu adorava essa palavra assim como "opercatas" e nem sei o porquê gostava tanto delas, talvez porque fosse difícil de escutá-las! Ao voltar da missa seu trajeto era a padaria pra comprar os pães, então voltava pra casa para tomar seu café preto com pão.
Era a pessoa mais solidária que já conheci em toda aminha vida, todo mendigo ou família que passava pedindo esmola ela nunca negava, sempre aranjava algo para lhes dá. Tinha umas senhoras que era comum, eram quase da família, chegavam, sentavam, conversavam... Ela sempre muito acolhedora e com muita paciência.
A vida era assim: sem resmungos, levando, mas sempre com muita alegria, sempre cantando as cantigas de sucesso de seu tempo(Muito linda!).




Essa é uma parte das lembranças da minha querida vovó, a Dona Yvonne, que no dia 24 de maio desse ano teria completos seus 90 aninhos de idade!
Saudades...
(a medida que eu for lembrando de mais coisas eu vou acrescentando)

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